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Quando fiquei sabendo da dinâmica que teriamos que realizar, minha primeira reação foi de fulga. Pedi licença para as pessoas, me levantei e fui tomar aguá (no bebedouro “mais longe possível”). Mas sempre que meu mecanismo de fulga era ativado, lá vinha a voz do meu amigo na minha mente: “não fuja, você precisa enfrentar seus medos”. 

Pensei então, “bom, já estou aqui. Se não enfrentar agora, vou voltar com essa carga toda e não tenho mais forças para carregá-la.” Entre um momento de raiva e gratidão por tudo o que meu amigo já vinha me dizendo há meses, respirei fundo, voltei para o salão, e me entreguei `aquele momento. 

Foi uma das experiências mais doloridas e libertadoras pelas quais já passei na vida. Ao final da tarde, já com os olhos pequenos de tanto chorar, me deitei no chão do salão (sem me importar com as pessoas por perto, aliás, algumas seguiram minha idéia) abri os braços e deixei que meu corpo descansasse. Me sentia exausta e ao mesmo tempo mais leve. Uma nova amiga se deitou ao meu lado, também com os olhos cheios d’agua, segurou minha mão e disse: “parabéns para nós, sobrevivemos”. Me senti tão acolhida nesse momento que me virei e lhe dei um abraço. Era como se já a conhecesse há anos. Essa é uma das “mágicas” desse local. Ninguém sustenta suas máscaras por muito tempo, somos quem realmente somos nesse mundo. Expomos nossa vulnerabilidade, medos, inseguranças e juntos nos fortalecemos. 

Voltei para minha posição inicial e ficamos lá por mais alguns minutos, deitadas, mãos dadas e braços abertos. Conversamos muito, choramos, rimos e agradecemos. Levantamos, apenas, quando nos avisaram que deveriamos tomar um banho e em seguida seguir para a sala de meditação. Dei um abraço bem apertado na minha “nova velha amiga” e segui para o meu quarto. 

Quando, após o banho, cheguei a sala de meditação, senti como se ela me estendesse a mão dizendo: “pode entrar, sei que está cansada, mas isso vai passar”. Em silêncio, entrei, peguei uma almofada e me sentei. Olhos fechados, respiração leve, mente calma, coração aberto. Foi assim que comecei a meditar e pela primeira vez, senti o que significava meditar. 

Ao final, com quase ninguém na sala, me levantei e fui até o lindo “altar” de velas, flores e imagens. Me ajoelhei, curvando meu corpo até que minha testa encostasse no chão e entreguei todas as minhas dores, alegrias, esperanças e sonhos e com um sentimento imenso de gratidão no peito segui para o refeitorio. 

No caminho percebi que estava sem fome e que a noite estava linda. Como teríamos a noite de folga, para dormirmos mais cedo já que começariamos bem cedo no dia seguinte, fui para um lugar muito agradável e sob o céu estrelado, estendi minha manta na grama e fiquei lá deitada olhando as estrelas, me sentindo viva e conversando com Deus…(continua…)