Após três horas de conversa, ao pé da árvore, eu a vi sair. Olhos ainda marcados pelas lágrimas, mãos suavemente trêmulas pelas emoções, passos cautelosos, mas firmes. Ela havia sido despedaçada pelas memórias de tudo o que viveu nos últimos anos, mas preferiu enfrentá-las e não anestesiar-se. 

Não me lembro de ter sentido tanto orgulho de uma pessoa nos últimos tempos, como senti daquela mulher, ali, na minha frente, caminhando em direção ao por do sol, dentro do seu silêncio libertador, apenas com as mãos estendidas para frente como quem anseia tocar o futuro, numa medida desesperada de sair do presente, mas mesmo assim, aguentando firme. 

Sentou-se no chão, joelhos próximos ao corpo, envolvidos pelos braços. As lágrimas ainda deslizavam, mas seu olhar estava fixo no por do sol, como se ele pudesse salvá-la. Era a mente lutando para acreditar que tudo na vida é cíclico, que um dia, tudo passa, seja bom ou não. 

Respeitei seu silêncio e fiquei na biblioteca da minha mente pesquisando porque fizeram tudo aquilo com ela. Por ser mulher? Por não ter o direito de ser feliz já que para isso precisaria sair da sua zona de conforto?  Que “porcaria social estavam fazendo com ela?” Falei baixinho. Mas depois me toquei que as feridas mais profundas da sua Alma não vinham da hipocrisia social mas dos vínculos mais íntimos de seus relacionamentos. Sim, ela amou. Amou demais. Amou ao ponto de se esquecer quem era, em prol dos outros, aliás, em prol das mesmas pessoas que a magoaram absurdamente.

Após longos minutos, o sol se pôs, mas não me movi. Fiquei lá, aguardando-a. Respeitando o seu tempo. Aliás, eu não saberia como interromper aquele momento, pois parecia libertador para nós duas. A noite caiu, e vi que lentamente ela foi entregando seu corpo à grama suave. Me levantei e fui em sua direção, sentei suavemente ao seu lado e com um sorriso perguntei: “você está se sentindo bem?”. E olhando no fundo dos meus olhos ela me disse: “se eu pudesse morrer agora, morreria feliz, mas ainda gosto de ficar vendo esse por do sol. E decidi que daqui para frente, essas marcas da minha Alma ficam aqui, nessa terra. Elas morreram, e com elas um pedaço de mim, mas posso me reinventar, como você falou. Posso ser quem eu quiser, e pensar nisso me traz paz. Então vamos, pois como disse Edgard Abbehusen: 

“Você precisa aprender a ser livre, menina.
E quem chegar que se vire pra aprender a conviver com você e essa tua liberdade.”

Com carinho,

Renata